Universo masculino em cena

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Na tradição literária, incluindo aí a dramaturgia, não é raro termos ótimos autores homens versando sobre o universo das mulheres, adjetivando suas escritas como femininas muitas vezes. O contrário, no entanto, é bastante incomum, poucas escritoras se atreveram a falar do universo masculino, muito menos exposto e verbal do que o delas. “Cloaca” da holandesa Maria Goos é um perfeito exemplar deste raro olhar da escrita feminina para o homem, construído com sensibilidade e grande força dramática, o texto conta a história de um quarteto de velhos amigos que estão naquela idade em que se faz necessário um balanço de suas vidas, escolhas e desejos. Um político em ascensão e em crise no casamento, um advogando com problemas com drogas e um diretor de teatro se encontram no apartamento do ex-funcionário público e único homossexual do grupo, que está sendo acusado de se apropriar indevidamente de obras de arte que pertencem ao Estado. Se no passado formaram um conjunto de dança nos tempos da universidade, atualmente os personagens enfrentam problemas cotidianos e tentam se ajudar, até perceberem amargamente que os interesses pessoais de agora podem ser maiores que a amizade de uma vida. A dramaturga aposta no humor ácido em diálogos irresistíveis e cria personagens interessantes que em geral fogem dos clichês tendenciosos sobre os homens, é curioso, por exemplo, que o personagem do diretor teatral, do qual se espera uma sensibilidade por conta de sua profissão artística, surja em cena como o mais insensível daqueles homens, já no único personagem gay, a partir de determinado momento, os clichês da sexualidade por vezes parecem querer aparecer e sobrepor seu drama. A única personagem feminina aparece quando a trama já está bastante avançada: uma prostituta russa contratada pelos amigos como presente de aniversário para um deles, a presença em cena é curta, mas decisiva, através de um discurso dramático sobre sua condição, ela materializa ao mesmo tempo o olhar feminino da autora e a crítica machista de seus personagens, sem cair no maniqueísmo do julgamento de valores. O diretor Eduardo Tolentino de Araújo trabalha com segurança o realismo das interpretações e concebe uma encenação sofisticada em total sintonia com as necessidades do texto, aqui a direção funciona para materializar esta obra de estrutura bastante tradicional, e é na ótima transposição da tradução de Fernando Paz para o palco que está sua maior qualidade. O elenco formado pelo tradicional Grupo Tapa tem domínio de suas atuações e forma um ótimo conjunto, com destaque para André Garolli que aproveita totalmente o humor de seu futuro ministro, explorando com grande energia suas falas e ações. Tony Giusti, como o epicentro da história, tem bom desempenho, em especial quando seu personagem não cai na estereotipação do homossexual, Dalton Vigh tem simpatia e transita bem com seu dependente químico, já Fernão Lacerda (stand-in de Brian Penido Ross) lida com um personagem menos interessante na trajetória da história, mas cria seu diretor de teatro com bastante verossimilhança. Vanessa Dockk (que reveza o papel feminino com Camila Czerkes) empresta beleza e graça à sua interpretação. “Cloaca” é um grande texto, e não bastasse isso, a montagem merece ser apreciada pelo alto nível do trabalho dos artistas brasileiros envolvidos.

Serviço: Teatro Nair Bello | Quinta e sábado 21h, sexta 21h30 e domingo 19h

Declaração de amor ao teatro

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Atualmente temos visto no teatro brasileiro um avançado processo de setorização do fazer teatral, com novas funções surgindo como desdobramento daquelas que no passado foram exercidas por um mesmo profissional, tal realidade ajuda, de certa forma, a profissionalizar o mercado, mas não é garantia de um bom resultado de espetáculo. A outra ponta dessa situação está no acúmulo de cargos criativos, o que exige muita atenção e autocrítica do artista para que o resultado interesse ao público tanto quanto à seu criador. Um exemplo bem sucedido desta segunda configuração é o espetáculo "Doido" concebido por Elias Andreato, uma das figuras mais conhecidas do teatro paulistano. Comemorando seus trinta anos de carreira, o artista reúne neste solo seus talentos como ator, diretor e ator, funções onde acumulou grande experiência em mais de cinquenta espetáculos. O texto é composto por idéias e fragmentos a partir da obra de clássicos pensadores e autores da dramaturgia, poesia e filosofia como Antonin Artaud, Vicent Van Gogh, Arthur Rimbaud, Miguel de Cervantes, William Shakespeare, Friedrich Nietzsche, Vaslav Nijinsky, Anton Tchékhov, Dante Alighieri, Oscar Wilde, J.W. Goethe e Fernando Pessoa, muito deles com os quais o artista já havia trabalhado em outros espetáculos ao longo de sua vida, o resultado do roteiro é uma emotiva colcha de retalhos sobre o teatro, a vida, e o cruzamento deles na história de uma pessoa/personagem que é o próprio criador do espetáculo, narrador desta paixão arrebatadora pela arte, comum à ele e todos os autores que utilizou. A direção localiza o espetáculo num escritório de criação do artista, concebendo momentos de beleza delicada e poética, cabendo destacar o uso dos elementos cotidianos do ateliê com os quais são construídas imagens de beleza delicada de forma simples e fluída ao longo da apresentação. É como ator, no entanto, que o criador deste monólogo nos conquista, primeiro pela emoção à qual se entrega e nos acomete com bastante pessoalidade, depois pelo incrível desempenho técnico que apresenta, mostrando de forma quase meta-teatral todos os seus recursos de construção de personagens, passeando com desenvoltura e bom humor por diferentes estados com rapidez e domínio, rendendo assim deleite à platéia com. Sem reinventar a linguagem do monólogo teatral, o artista o torna interessante e comovente, principalmente pelo caráter pessoal contido na obra. É gratificante assistir um espetáculo sensível e criado de forma realmente artesanal como é "Doido", esse trabalho que festeja a bela carreira de um grande homem do palco e é, em suma, sua sincera declaração de amor ao teatro, onde um é uma multidão.

Serviço: Teatro Eva Herz | Quinta e sexta 21h30

OBS: Os moradores de outras cidades, ou quem ainda não viu ou quer rever ao espetáculo, têm a oportunidade de conferir uma versão para linguagem audiovisual produzida com alta qualidade pelo interessante site Teatro Para Alguém, uma idéia inovadora que leva o teatro para a sua casa através da internet, clique aqui e assista.

Encontro de grandes artistas

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Heiner Müller, nascido na Alemanha Oriental, é considerado um dos principais dramaturgos pós-modernos, em referência à categorização da vanguarda dos anos 70 em diante. Falecido em 1995, o autor possui em sua dramaturgia um potente radicalismo formal e, utilizando-se muitas vezes de textos pré-existentes, transgride suas narrativas em reflexões sobre a essência humana do indivíduo com o sentido político muito presente. Ao lado de “Hamletmachine”, “Quartett” é um de seus textos mais montados em todo o mundo e que rendeu algumas recentes encenações no Brasil. O texto parte da idéia contida no romance epistolar do século XVIII “Ligações Perigosas” de Choderlos de Laclos, onde um casal de amantes da aristocracia francesa pré-Revolução se envolvem numa trama de manipulação de outros personagens em detrimento aos seus desejos mais obscuros. Mais do que reverenciar esta história, o dramaturgo, que assumiu não ter sequer terminado de ler o romance, toma emprestado estes dois personagens para tecer seu jogo dramático sobre, principalmente, o poder, em sua estrutura espaço-temporal então inovadora. O americano Robert Wilson é um dos mais instigantes diretores contemporâneos do mundo, famoso por suas experimentações de grande impacto nos anos 80, foi responsável por importantes montagens não só em seu país como em diversos países da Europa, como a França, de onde vem a montagem em questão. Com uma plasticidade que evoca as artes visuais, com as quais o artista tem cada vez mais se aproximado, a encenação é extremamente bela, operística e moderna, apostando na geometria do campo de ação e na colorimetria de seus tons de luz, figurino e mesmo de sentidos, com as cores como símbolos de estados da cena. Trabalhando seu timing teatral onde as pausas têm importância decisiva, o diretor parte do princípio que o texto que tem em mãos possui grande comicidade, como uma sátira à sociedade aristocrata francesa e não deve ser encarado como o drama caustico de montagens anteriores. Tal opção se evidencia no clima onírico que temos sobre o palco, onde a violência das falas e ações ganha uma camada de humor que respira o texto, abrangendo poeticamente todo o delírio provocado pela sordidez dos personagens. Isabelle Huppert, a atriz francesa mais festejada do cinema atual, protagoniza a peça com essencial maestria ao lado de Ariel Garcia Valdés. Ela surge em cena em comedida energia, construindo sua personagem por meio de uma apatia muito próxima da frieza, e tem total consciência rítmica e nenhum tipo de exagero dispensável, sendo seu trabalho bastante impressionante. Ele, em possível contraponto, surge menos blasé, e mais intenso vocal e fisicamente, chocando-se com a parceira e produzindo assim um interessante duelo. Benoit Marechal, Michel Beaujard e Rachel Eberhart respondem coreograficamente por interferências em diversos planos sobrepostos à história principal e apresentam belas presenças, sedimentando o sonho visual dos protagonistas que a montagem apresenta. “Quartett” é um bem humorado jogo cênico que reúne diversos talentos preciosos e uma plástica teatral elegantíssima e funcional.

Serviço: Teatro do Sesi (Porto Alegre Em Cena) | 23, 24 e 25 de Setembro 21h

O palco quando provocador

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Muito se fala do abandono da platéia, o público brasileiro tem se distanciado do teatro cada vez mais nas últimas duas décadas em conseqüência de diferentes razões, algumas concretas (como o surgimento e sedimentação de outras opções de entretenimento e o alto custo dos ingressos) e outras abstratas como o desinteresse no teatro, talvez a questão mais séria e sobre a qual ainda não nos debruçamos com a devida atenção. A classe média, de onde sempre proveio a maior fatia do público de teatro, deixou de ir às salas de espetáculo como hábito natural e passou a encará-lo como um passeio, ou um “programa especial”, no pior sentido que este termo possa representar, como algo distante, que acontece pontualmente e tem pouca influência em suas vidas. Em geral os espetáculos escolhidos para se tornarem o tal programa teatral da semana (na melhor hipótese) ou do ano (na mais pessimista) são produções comerciais encabeçadas por grandes nomes da nossa televisão, como Antônio Fagundes, um dos atores mais famosos de nosso país. A expectativa de grande parte do público que lota seu espetáculo é por ver ao vivo o galã e, de forma parcial, se entreter por uma hora e vinte minutos antes do jantar. O ator, também produtor da montagem, tem consciência de seu alcance e do fascínio que exerce, e aproveita-se de sua condição privilegiada para surpreender o público apresentando não um entretenimento fácil, mas uma obra artística de altíssimo nível e grande teor provocativo. O artista cumpre a função de lançar uma reflexão diferente ao público, e não se limita às convenções esperadas. O texto escolhido foi “Wrecks” de Neil LaBute, aqui livremente traduzido como “Restos”. O autor, também cineasta (“Na Companhia de Homens” é seu primeiro e mais representativo filme), é um dos principais nomes da dramaturgia contemporânea americana, anglófilo, sua obra remete ao movimento In-Yer-Face do teatro britânico dos anos 90, com histórias bastante perturbadoras e diálogos afiados que despem o lado mais sombrio da natureza humana. O texto em questão, um monólogo, mostra um inconformado viúvo de meia idade que no velório de sua companheira desvela a história de seu amor. Delicadamente subversivo e instigante, o autor acerta ao se estender mais na narrativa poética do sentimento do personagem e localizar a inesperada revelação no fim da trajetória, o que muda o sentido trágico, mas assegura a empatia do público pela controversa figura central, eliminando o maniqueísmo que poderia atrapalhar a reflexão que ele nos provoca acerca das rupturas dos limites do amor e do desejo. Traduzido com fluência por Clarisse Abujamra o texto recebeu direção de Márcio Aurélio que concebeu uma encenação extremamente limpa e elegante, que ao mesmo tempo em que mantém total sintonia com o texto o transgride em imagens de impacto e beleza com o auxílio de uma cenografia moderna que se revela ao longo da peça. O ator apresenta um ótimo trabalho com emocionante entrega ao texto e total domínio técnico de voz e movimento, preenchendo o palco com sua forte presença. Se ele entra em cena já com o público ganho, poderia facilmente perdê-lo pelo choque que sua escolha em encenar este texto causaria na classe média pagante, isso não ocorre enfim, menos pela parcialidade do público e mais pelo real envolvimento que o ator, com seu cuidadoso desempenho, atinge. “Restos” é um belo texto exemplarmente estrelado por um profissional que não renega seu lugar de destaque na sociedade mas, utilizando-se dele, leva ao público médio um teatro realmente provocador.

Serviço: Teatro FAAP | Quinta e sexta 21h, sábado 20h e domingo 18h

Festa do teatro

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São Paulo é considerada por muitos a capital brasileira do teatro, e podemos comprovar isso sem dificuldade pelo enorme número de peças em cartaz, pelos novos espaços teatrais que surgem pela cidade e no trabalho de alta qualidade de grupos jovens e a continuidade daqueles já consagrados. Nada mais justo que festejar o teatro que se produz nesta metrópole até então desprovida de uma mostra competitiva regional voltada, em primazia, para companhias do estado de São Paulo. Foi neste intuito que o produtor cultural e curador Eduardo Marins lançou em Agosto deste ano o Festival Teatro Cidade de São Paulo, a edição paulista de um festival produzido por ele há sete anos no Rio de Janeiro. Durante todo o mês dezoito grupos entre aqueles voltados para o público infantil e aqueles voltados ao público adulto apresentaram seus espetáculos no palco do festival, demonstrando a enorme diversidade teatral cada um trabalhando uma linguagem própria desde o melodrama ao teatro físico, passando pelo circo-teatro, o teatro juvenil e a commedia dell’arte. É essencial dar espaço à estes grupos, muitos oriundos de importantes faculdades teatrais ou de cidades fora do centro urbano, e todos merecedores de aplausos pelo esforço profissional com que conduziram suas participações. O Caderno Teatral teve o prazer de estar presente durante toda a programação através da minha participação, Lucianno Maza, na comissão julgadora, formada ainda pelos colegas Maria Dudah Senne, Sérgio Miguel Braga e Ruy Jobim Neto. Não foi uma tarefa fácil escolher entre tantos profissionais os indicados em cada categoria e os vencedores que levaram o troféu Arlequim. Os espetáculos selecionados como melhor montagem ganham ainda uma temporada no Teatro Bibi Ferreira com todas as despesas pagas. Segue abaixo a lista de indicados e premiados:

Prêmio Especial do Júri:

Pesquisa de Linguagem

Indicados:
Cia. Retalhos de Teatro - A Verdadeira História... Não Contada
Quase9 Teatro - Lilá Ou O Jogo de Deus
Vencedor:
Cia. Retalhos de Teatro - A Verdadeira História... Não Contada

Infantil:

Texto
Indicado e vencedor:
Julieno Vasconcellos - A Verdadeira História... Não Contada

Iluminação
Indicados:
Douglas Silva - O Menino Maluquinho... Mais Um
Luis Felipe Petuxo - A Bruxinha Que Era Boa
Paulo Oseas - O Cavalinho Azul
Vencedor:
Paulo Oseas - O Cavalinho Azul

Figurino
Indicados:
? Cia de Teatro - O Menino Maluquinho... Mais Um
Nathalia Neme e Thelma Luz – O Cavalinho Azul
Vinicius Almeps e Luis Felipe Petuxo – A Bruxinha Que Era Boa
Vencedor:
Vinicius Almeps e Luis Felipe Petuxo – A Bruxinha Que Era Boa

Cenografia
Indicados:
Carolina Guimarães - O Menino Maluquinho... Mais Um
Lu Grecco - A Bruxinha Que Era Boa
Zé Valdir Albuquerque – O Cavalinho Azul
Vencedor:
Zé Valdir Albuquerque – O Cavalinho Azul

Ator coadjuvante
Indicados:
Daniel San Martin - A Bruxinha Que Era Boa
Marcelo Molina - Pinóquio, Um Menino de Verdade
Rodrigo Bianchini - O Cavalinho Azul
Vencedor:
Daniel San Martin - A Bruxinha Que Era Boa

Atriz coadjuvante
Indicadas:
Adriana Yoshicawa - A Bruxinha Que Era Boa
Nathalia Neme - O Cavalinho Azul
Thelma Luz - O Cavalinho Azul
Vencedor:
Nathalia Neme - O Cavalinho Azul

Ator
Indicados:
Daniel Lucas - A Verdadeira História... Não Contada
Jeferson Ilha - A Verdadeira História... Não Contada
Nelsinho Guimarães - A Bruxinha Que Era Boa
Vencedor:
Daniel Lucas - A Verdadeira História... Não Contada

Atriz
Indicadas:
Ângela Rechia - A Verdadeira História... Não Contada
Lorena Rocha - O Menino Maluquinho... Mais Um
Silvana Lins - O Cavalinho Azul
Vencedor:
Ângela Rechia - A Verdadeira História... Não Contada

Direção
Indicados:
Helquer Paez - A Verdadeira História... Não Contada
Luis Felipe Petuxo - A Bruxinha Que Era Boa
Rodrigo Palmieri - O Cavalinho Azul
Vencedor:
Rodrigo Palmieri – O Cavalinho Azul

Montagem
Indicados:
A Bruxinha Que Era Boa
A Verdadeira História... Não Contada
O Cavalinho Azul
Vencedor:
A Bruxinha Que Era Boa

Adulto:

Texto
Indicados:
Quase9 Teatro - Lilá Ou O Jogo de Deus
Roberto Vignati - João Pacífico, O Poeta do Sertão
Zé Alberto Martins - Saída de Emergência
Vencedor:
Quase9 Teatro - Lilá Ou O Jogo de Deus

Iluminação
Indicados:
Luci Lima - A Maldição do Vale Negro
Marcus Alem – Travessia
Rogério Cândido - João Pacífico, O Poeta do Sertão
Vencedor:
Marcus Alem - Travessia

Figurino
Indicados:
Adriana Quagliato e Márcio Tadeu – Mirandolina
Iara Carvalho - A Maldição do Vale Negro
Iolanda Lourenço – Travessia
Vencedor:
Adriana Quagliato e Márcio Tadeu – Mirandolina

Cenografia
Indicados:
Adriana Quagliato e Márcio Tadeu – Mirandolina
Luci Lima – A Maldição do Vale Negro
Vladimir Corrêa - João Pacífico, O Poeta do Sertão
Vencedor:
Adriana Quagliato e Márcio Tadeu – Mirandolina

Ator coadjuvante
Indicados:
Ataliba Chateaubriand - Ah Se O Anacleto Soubesse
João Ramos - A Maldição do Vale Negro
Leonardo Costa - Mirandolina
Vencedor:
Leonardo Costa - Mirandolina

Atriz coadjuvante
Indicadas:
Ana Claudia Prates – Mirandolina
Natália Kwast – Mirandolina
Suelen Miranda – A Maldição do Vale Negro
Vencedora:
Natália Kwast – Mirandolina

Ator
Indicados:
Célio Nascimento - João Pacífico, O Poeta do Sertão
Leandro Ivo – Mirandolina
Paulo Williams - Travessia
Vencedor:
Paulo Williams - Travessia

Atriz
Indicadas:
Alinne Bello - De: Quatro Para: Você
Natasha Goulart - Mirandolina
Regina Schirmer - A Maldição do Vale Negro
Vencedora:
Regina Schirmer - A Maldição do Vale Negro

Direção
Indicados:
Elias Cohen - Lilá Ou O Jogo de Deus
Jamil Dias - A Maldição do Vale Negro
Márcio Tadeu - Mirandolina
Paulo Williams - Travessia
Vencedor:
Elias Cohen - Lilá Ou O Jogo de Deus

Montagem
Indicados:
A Maldição do Vale Negro
Lilá Ou O Jogo de Deus
Mirandolina
Travessia
Vencedor:
Mirandolina


Serviço adulto: Mirandolina (foto) - Teatro Bibi Ferreira | Terças e quartas 21h
Serviço infantil: A Bruxinha Que Era Boa - idem | Sábados e domingos 15h30

A metáfora libertária dos artistas

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Muitas vezes nos perguntamos o quanto a realidade em que o artista está inserido interfere em sua criação. Por mais que sobrepuje seu contexto social em obras que não relatem seu tempo-espaço, o artista criador é ele próprio fruto dos mesmos, e portanto indissociável de sua História. Podemos notar isso claramente no espetáculo mais recente do grupo teatral Os Satyros. O texto de “Liz” retrata em primeiro plano a rainha Elizabeth I, uma das maiores soberanas da História que governou a Inglaterra durante meio século, expondo a figura mítica que instaurava seus interesses políticos, e ao mesmo tempo a humanizando como a mulher solitária com desejos e temores. O período elisabetano teve forte movimentação nos campos da arte, em especial o teatro, e o texto nos apresenta isso em paralelo através da figura de Christopher Marlowe, autor revolucionário da época, contemporâneo de William Shakespeare, mais experiente e prestigiado até então, e morto prematuramente em um assassinato não esclarecido, na peça mostrado como uma conspiração política movida a interesses pessoais da rainha. Mas o reinado da última descendente dos Tudors é marcado especialmente pelo autoritarismo comum aos ditadores monarcas, e é na nacionalidade cubana de Reinaldo Montero que reside grande parte do poder de seu texto. É impossível não refletir em como o autor usa o que se passava na ilha inglesa no século XVI para refletir sobre sua ilha cubana do século XX (e início do XXI) e a figura do ditador que por mais de quarenta anos esteve à frente de sua nação. Essa sobreposição das duas ilhas é enriquecida ainda mais se pensarmos no grupo brasileiro que a representa, afinal a trupe sediada em São Paulo é responsável ela própria pela existência de uma ilha, diferente das porções de terra citadas anteriormente, neste caso sai a ditadura do governo e vem a força dos artistas que fizeram uma ilha criativa emergir em meio ao abandono de uma região marginalizada no início desta década, agora convertida em pólo cultural. É muito interessante como temos assim a ilha da Praça Roosevelt apresentando a peça proveniente da ilha de Cuba que conta a História da ilha da Inglaterra. Cabe destacar que, assim como o autor, a companhia também está intrinsecamente ligada socialmente e esteticamente à sua História. A contribuição brasileira começa pela belíssima encenação de Rodolfo García Vásquez que explode em cores fortes e certo caos, marca do diretor, e na inventividade do mesmo em equilíbrio com o texto, complementando-o sem sufocá-lo, com boas marcações e recursos cênicos (como o capuz de tule que representa a morte que encobre os personagens ou o microfone que aqui funciona menos como amplificador de discurso e mais como confessionário de idéias e sentimentos dos personagens), além da bela plasticidade a montagem conta com uma despojada e curiosa trilha sonora que vai de Roberto Carlos à Velvet Underground. Cléo de Páris como a rainha protagonista apresenta o melhor trabalho dos que pude acompanhar em sua carreira, a atriz encontra força e altivez em sua interpretação, assim como empresta beleza e humanidade, liderando com êxito o elenco. Ivam Cabral se aproxima com grande sensibilidade do dramaturgo co-protagonista, aproveitando de forma perfeita seu personagem desde a primeira entrada até nos arrebatar em suas cenas finais, em especial num discurso onde nos instiga e emociona. Fábio Penna e Germano Pereira estão muito bem, carregando de vivacidade seus sirs. Silvanah Santos e Phedra D. Córdoba dão humor como as comentadoras da história, e é interessante o fato da segunda ser cubana e com seu sotaque remeter-nos ao olhar do autor co-patriota. Alberto Guzik, Brígida Menegatti, Chico Ribas, Julia Bobrow e Tiago Leal complementam o elenco com sucesso. “Liz” é um belo espetáculo, importante historicamente por seu conteúdo e por celebrar os 20 anos desta companhia que vem fazendo História no teatro contemporâneo brasileiro.

Serviço: Espaço dos Satyros I | Sexta e sábado 21h

Quando o romance está no teatro

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A transposição de uma obra de sucesso criada em um suporte artístico (literário, cinematográfico ou teatral) para outro nem sempre obtém o mesmo êxito, ao contrário, muitas vezes algo essencial se perde neste trânsito. “As Pontes de Madison” é exemplo de uma das ótimas adaptações que o cinema norte-americano já fez, dirigido por Clint Eastwood e estrelado por ele e Meryl Streep o filme de 1995 é talvez um dos mais representativos do gênero romântico em todos os tempos, derivado de um best-seller americano, superou e potencializou o sucesso do livro. O romance de Robert James Waller, matéria-prima do roteiro é também a base para uma nova adaptação, desta vez para o teatro, muito bem feita por Alexandre Tenório que consegue condensar e apresentar com sensibilidade a história da dona de casa de origem italiana, casada com um fazendeiro e mãe de dois filhos, que tem sua vida sacudida com a chegada de um fotógrafo viajante que vai à sua cidade para fotografar as antigas pontes da região, e termina por arrebatá-la de amor, devolvendo-lhe a vida que ela tinha deixado adormecida ao parar de lecionar Literatura e se dedicar exclusivamente à sua família. O caso de amor nos é contado pelos dois filhos da protagonista, e assim ao mesmo tempo em que temos a amoral história de afeto dos dois apaixonados, o autor a confronta com o olhar dos filhos do infeliz casamento, em especial do filho que se sente traído ao saber da história de sua mãe com outro homem. Jussara Freire ganha o público ao representar a mulher que redescobre a paixão no meio da vida, a atriz emociona e diverte com sua humanidade, criando empatia e cumplicidade com quem assiste essa história, na qual ela é bem acompanhada por Marcos Caruso que demonstra paixão em sua interpretação e constrói o charme necessário para que seu personagem seja apaixonante também para o público. Luciene Adami e Paulo Coronato vivem os filhos da personagem principal e estão bem, em especial o segundo que sabe aproveitar o bom papel que tem em mãos. A encenação é corretamente dirigida por Regina Galdino que aposta no realismo e na beleza que é possível extrair dele, em geral tudo é de muito bom gosto (com um pouco de excesso de romantismo na trilha sonora) e a diretora cria belos momentos, ao mesmo tempo em que parece evocar o filme, em especial na condução das interpretações de seus atores, ainda neste sentido a antológica cena cinematográfica do reencontro dos dois protagonistas embaixo de chuva, no palco surge sem o encanto, mas é muito bem defendido pela atriz principal que nos emociona em seu texto. Este é um comovente espetáculo sobre amor que merece ser visto pelo grande público.

Serviço: Teatro Renaissance | Sexta 21h30, sábado 21h e domingo 19h

 

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