A adaptação literária para teatro é sempre um risco, como em qualquer transposição de trabalhos criados originalmente para um segmento e que acabam em outro. Algumas vezes, no entanto, temos grandes e prazerosas surpresas. “Comunicação A Uma Academia”, livro de Franz Kafka escrito em 1917, dialoga com seu texto mais famoso “A Metamorfose”, onde um homem vira um insignificante inseto, agora temos um macaco que em auto-evolução decide se tornar humano aprendendo a pensar e agir como um, para sobreviver e alcançar a liberdade da civilização, mas vai se deparar com uma sociedade muito menos livre (em seus códigos éticos e morais) do que ele fora quando símio. Acompanhamos o texto do célebre autor tcheco pela boa adaptação de seu diretor Roberto Alvim, que apresenta um trabalho sofisticado de fria elegância que tanto remete à sociedade criticada na obra. Com um belo desenho cênico, que transita entre o minimalismo e a austeridade, a direção cria um ambiente soturno e impessoal, aproveitando muito bem o espaço bastante específico onde se apresenta, e arremata envolvendo tudo em som de ópera, o que valoriza o sentido trágico da história. O diretor trabalha seu elenco com lapidação objetiva e cuidadosa, de forma totalmente eficiente. Gê Viana é uma forte figura de apoio como o silencioso guarda armado que vigia o protagonista, sendo ele próprio a materialização da sociedade opressora onde está inserido o macaco-homem. O grande destaque da montagem é Juliana Galdino que impressiona imageticamente, com perfeita caracterização, usando uma maquiagem que ressalta os traços humanos descendentes dos símios, que a deixa esteticamente crível e interessante. A atriz segue nos empolgando quando apresenta ótimo trabalho de composição física e seu inconfundível preparo vocal, em excelente performance. Com destreza e economia, a emoção de sua interpretação dispensa exageros dramáticos e impressionistas, concentrando-se nas angustias existencialistas do personagem, que a protagonista concebe com melancólica delicadeza. O Club Noir (companhia dos artistas envolvidos) deixa um pouco de lado sua usual experimentação em forma (como em “O Quarto”) para, sem abandonar sua estética, explorar a dramaticidade de “Comunicação A Uma Academia”, construindo um espetáculo palatável e interessantíssimo, não só para outros artistas, como para o público geral.
Serviço: Teatro Imprensa (Sala Vitrine) | Terça e quarta 21h