O teatro tem como princípio desde o sempre contar uma história. As histórias têm como princípio encantar quem as escuta. A diferença entre uma boa história e uma má, reside muitas vezes no olhar e na boca de quem as conta. É preciso que seus contadores sejam eles também seres encantados, que transformem em palavra aquilo que existe dentro do silêncio. Encantador. Assim é o texto de “Aldeotas” escrito por Gero Camilo, com uma beleza que trabalha artesanalmente a palavra, num andamento lento e precioso, o autor apresenta a história de dois amigos, duas crianças, dois homens, cujas lembranças de uma profunda amizade emergem do tempo, em episódios marcantes que transitam da graça e leveza das descobertas aos momentos tristes ou críticos na vida dos personagens, sem nunca perder seu tom onírico. Tratando de um dos mais instigantes temas que uma obra de arte pode ter, a memória, o autor cria uma dramaturgia elíptica, com simplicidade e profundidade nas mesmas medidas, puxando os fios das memórias pessoais de cada espectador. O belíssimo texto é presenteado pela direção delicada de Cristiane Paoli Quito que ao descartar tudo aquilo que é dispensável, se centra no processo de interpretação narrativa de seus atores, e numa encenação limpa e profundamente tocante, seja pelo uso do recurso cenográfico do tapete e tela suspensa que alcançam com poesia todos os ambientes propostos, seja pela beleza de suas marcações essenciais, eliminando qualquer resquício de realismo, e valorizando o caráter imagético do texto. A montagem tem o privilégio de ter seu autor em cena, contando com paixão sua história, representando aquele que é o eixo de sua narrativa. Sua interpretação é arrebatadora, seja pela técnica física e vocal que exibe em diferentes modulações, seja pelo nível de delicadeza que atinge, contagiando e comovendo o público à sua volta. Na outra figura da história está Caco Ciocler generoso e contribuinte em cena, sua interpretação cria grande empatia com a construção de seu personagem complementar ao que o autor defende, sua interpretação é também um contra-ponto mais másculo e seco, mas não menos delicado e tocante. O poder transformador do teatro, pode vir pela reflexão do futuro, ou pelo confronto com o passado, e “Aldeotas” traz uma série de emocionantes memórias contadas com fascinante cuidado por dois atores encantadores. Uma peça-lembrança para ficar sempre na memória de quem vê.
Serviço: Tucarena | Sábado 21h e domingo 19h30