Muitas vezes nos perguntamos o quanto a realidade em que o artista está inserido interfere em sua criação. Por mais que sobrepuje seu contexto social em obras que não relatem seu tempo-espaço, o artista criador é ele próprio fruto dos mesmos, e portanto indissociável de sua História. Podemos notar isso claramente no espetáculo mais recente do grupo teatral Os Satyros. O texto de “Liz” retrata em primeiro plano a rainha Elizabeth I, uma das maiores soberanas da História que governou a Inglaterra durante meio século, expondo a figura mítica que instaurava seus interesses políticos, e ao mesmo tempo a humanizando como a mulher solitária com desejos e temores. O período elisabetano teve forte movimentação nos campos da arte, em especial o teatro, e o texto nos apresenta isso em paralelo através da figura de Christopher Marlowe, autor revolucionário da época, contemporâneo de William Shakespeare, mais experiente e prestigiado até então, e morto prematuramente em um assassinato não esclarecido, na peça mostrado como uma conspiração política movida a interesses pessoais da rainha. Mas o reinado da última descendente dos Tudors é marcado especialmente pelo autoritarismo comum aos ditadores monarcas, e é na nacionalidade cubana de Reinaldo Montero que reside grande parte do poder de seu texto. É impossível não refletir em como o autor usa o que se passava na ilha inglesa no século XVI para refletir sobre sua ilha cubana do século XX (e início do XXI) e a figura do ditador que por mais de quarenta anos esteve à frente de sua nação. Essa sobreposição das duas ilhas é enriquecida ainda mais se pensarmos no grupo brasileiro que a representa, afinal a trupe sediada em São Paulo é responsável ela própria pela existência de uma ilha, diferente das porções de terra citadas anteriormente, neste caso sai a ditadura do governo e vem a força dos artistas que fizeram uma ilha criativa emergir em meio ao abandono de uma região marginalizada no início desta década, agora convertida em pólo cultural. É muito interessante como temos assim a ilha da Praça Roosevelt apresentando a peça proveniente da ilha de Cuba que conta a História da ilha da Inglaterra. Cabe destacar que, assim como o autor, a companhia também está intrinsecamente ligada socialmente e esteticamente à sua História. A contribuição brasileira começa pela belíssima encenação de Rodolfo García Vásquez que explode em cores fortes e certo caos, marca do diretor, e na inventividade do mesmo em equilíbrio com o texto, complementando-o sem sufocá-lo, com boas marcações e recursos cênicos (como o capuz de tule que representa a morte que encobre os personagens ou o microfone que aqui funciona menos como amplificador de discurso e mais como confessionário de idéias e sentimentos dos personagens), além da bela plasticidade a montagem conta com uma despojada e curiosa trilha sonora que vai de Roberto Carlos à Velvet Underground. Cléo de Páris como a rainha protagonista apresenta o melhor trabalho dos que pude acompanhar em sua carreira, a atriz encontra força e altivez em sua interpretação, assim como empresta beleza e humanidade, liderando com êxito o elenco. Ivam Cabral se aproxima com grande sensibilidade do dramaturgo co-protagonista, aproveitando de forma perfeita seu personagem desde a primeira entrada até nos arrebatar em suas cenas finais, em especial num discurso onde nos instiga e emociona. Fábio Penna e Germano Pereira estão muito bem, carregando de vivacidade seus sirs. Silvanah Santos e Phedra D. Córdoba dão humor como as comentadoras da história, e é interessante o fato da segunda ser cubana e com seu sotaque remeter-nos ao olhar do autor co-patriota. Alberto Guzik, Brígida Menegatti, Chico Ribas, Julia Bobrow e Tiago Leal complementam o elenco com sucesso. “Liz” é um belo espetáculo, importante historicamente por seu conteúdo e por celebrar os 20 anos desta companhia que vem fazendo História no teatro contemporâneo brasileiro.
Serviço: Espaço dos Satyros I | Sexta e sábado 21h