Universo masculino em cena

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Na tradição literária, incluindo aí a dramaturgia, não é raro termos ótimos autores homens versando sobre o universo das mulheres, adjetivando suas escritas como femininas muitas vezes. O contrário, no entanto, é bastante incomum, poucas escritoras se atreveram a falar do universo masculino, muito menos exposto e verbal do que o delas. “Cloaca” da holandesa Maria Goos é um perfeito exemplar deste raro olhar da escrita feminina para o homem, construído com sensibilidade e grande força dramática, o texto conta a história de um quarteto de velhos amigos que estão naquela idade em que se faz necessário um balanço de suas vidas, escolhas e desejos. Um político em ascensão e em crise no casamento, um advogando com problemas com drogas e um diretor de teatro se encontram no apartamento do ex-funcionário público e único homossexual do grupo, que está sendo acusado de se apropriar indevidamente de obras de arte que pertencem ao Estado. Se no passado formaram um conjunto de dança nos tempos da universidade, atualmente os personagens enfrentam problemas cotidianos e tentam se ajudar, até perceberem amargamente que os interesses pessoais de agora podem ser maiores que a amizade de uma vida. A dramaturga aposta no humor ácido em diálogos irresistíveis e cria personagens interessantes que em geral fogem dos clichês tendenciosos sobre os homens, é curioso, por exemplo, que o personagem do diretor teatral, do qual se espera uma sensibilidade por conta de sua profissão artística, surja em cena como o mais insensível daqueles homens, já no único personagem gay, a partir de determinado momento, os clichês da sexualidade por vezes parecem querer aparecer e sobrepor seu drama. A única personagem feminina aparece quando a trama já está bastante avançada: uma prostituta russa contratada pelos amigos como presente de aniversário para um deles, a presença em cena é curta, mas decisiva, através de um discurso dramático sobre sua condição, ela materializa ao mesmo tempo o olhar feminino da autora e a crítica machista de seus personagens, sem cair no maniqueísmo do julgamento de valores. O diretor Eduardo Tolentino de Araújo trabalha com segurança o realismo das interpretações e concebe uma encenação sofisticada em total sintonia com as necessidades do texto, aqui a direção funciona para materializar esta obra de estrutura bastante tradicional, e é na ótima transposição da tradução de Fernando Paz para o palco que está sua maior qualidade. O elenco formado pelo tradicional Grupo Tapa tem domínio de suas atuações e forma um ótimo conjunto, com destaque para André Garolli que aproveita totalmente o humor de seu futuro ministro, explorando com grande energia suas falas e ações. Tony Giusti, como o epicentro da história, tem bom desempenho, em especial quando seu personagem não cai na estereotipação do homossexual, Dalton Vigh tem simpatia e transita bem com seu dependente químico, já Fernão Lacerda (stand-in de Brian Penido Ross) lida com um personagem menos interessante na trajetória da história, mas cria seu diretor de teatro com bastante verossimilhança. Vanessa Dockk (que reveza o papel feminino com Camila Czerkes) empresta beleza e graça à sua interpretação. “Cloaca” é um grande texto, e não bastasse isso, a montagem merece ser apreciada pelo alto nível do trabalho dos artistas brasileiros envolvidos.

Serviço: Teatro Nair Bello | Quinta e sábado 21h, sexta 21h30 e domingo 19h

 

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