Quando o romance está no teatro

A transposição de uma obra de sucesso criada em um suporte artístico (literário, cinematográfico ou teatral) para outro nem sempre obtém o mesmo êxito, ao contrário, muitas vezes algo essencial se perde neste trânsito. “As Pontes de Madison” é exemplo de uma das ótimas adaptações que o cinema norte-americano já fez, dirigido por Clint Eastwood e estrelado por ele e Meryl Streep o filme de 1995 é talvez um dos mais representativos do gênero romântico em todos os tempos, derivado de um best-seller americano, superou e potencializou o sucesso do livro. O romance de Robert James Waller, matéria-prima do roteiro é também a base para uma nova adaptação, desta vez para o teatro, muito bem feita por Alexandre Tenório que consegue condensar e apresentar com sensibilidade a história da dona de casa de origem italiana, casada com um fazendeiro e mãe de dois filhos, que tem sua vida sacudida com a chegada de um fotógrafo viajante que vai à sua cidade para fotografar as antigas pontes da região, e termina por arrebatá-la de amor, devolvendo-lhe a vida que ela tinha deixado adormecida ao parar de lecionar Literatura e se dedicar exclusivamente à sua família. O caso de amor nos é contado pelos dois filhos da protagonista, e assim ao mesmo tempo em que temos a amoral história de afeto dos dois apaixonados, o autor a confronta com o olhar dos filhos do infeliz casamento, em especial do filho que se sente traído ao saber da história de sua mãe com outro homem. Jussara Freire ganha o público ao representar a mulher que redescobre a paixão no meio da vida, a atriz emociona e diverte com sua humanidade, criando empatia e cumplicidade com quem assiste essa história, na qual ela é bem acompanhada por Marcos Caruso que demonstra paixão em sua interpretação e constrói o charme necessário para que seu personagem seja apaixonante também para o público. Luciene Adami e Paulo Coronato vivem os filhos da personagem principal e estão bem, em especial o segundo que sabe aproveitar o bom papel que tem em mãos. A encenação é corretamente dirigida por Regina Galdino que aposta no realismo e na beleza que é possível extrair dele, em geral tudo é de muito bom gosto (com um pouco de excesso de romantismo na trilha sonora) e a diretora cria belos momentos, ao mesmo tempo em que parece evocar o filme, em especial na condução das interpretações de seus atores, ainda neste sentido a antológica cena cinematográfica do reencontro dos dois protagonistas embaixo de chuva, no palco surge sem o encanto, mas é muito bem defendido pela atriz principal que nos emociona em seu texto. Este é um comovente espetáculo sobre amor que merece ser visto pelo grande público.

Serviço: Teatro Renaissance | Sexta 21h30, sábado 21h e domingo 19h

Uma autora vivenciada por uma atriz apaixonada

Hilda Hilst foi uma das mais prolíferas escritoras da literatura brasileira, autora de uma valiosa obra em poesia, prosa, crônica e teatro, a paulista de Jaú viveu intensamente os anos 50 e 60 entre amores, viagens e experiências, até se refugiar em 1966 na Casa do Sol, chácara nos arredores de Campinas onde viveu até sua morte em 2004 e onde produziu a maior parte de seus escritos. Transgressora, a autora revolucionou a literatura feminina no Brasil ao lado de escritoras como Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles e Nélida Piñon. Reconhecida pela crítica especializada e por prêmios de importantes instituições, foi colocada de lado pela mídia cultural e as grandes editoras por muito tempo. A marginalização da literatura é tema recorrente em sua obra, assim como a relação paternal, Deus e a loucura, interesses despertados muito cedo através de seu pai que a inspirou no ofício da escrita e que enlouqueceu quando a escritora ainda era muito jovem. Rosaly Papadopol, nutrindo grande paixão pela literatura da escritora, leva à cena sua vida e obra, que se confunde como é comum nas melhores obras literárias. Criadora do projeto do espetáculo “Hilda Hilst – O Espírito da Coisa”, acalentado por muito tempo, a atriz enveredou numa pesquisa sincera e de altíssima qualidade com a consultoria literária do maior amigo e profundo conhecedor da escritora, o também autor José Luis Mora Fuentes (falecido recentemente). É o apaixonado e apaixonante trabalho da atriz que torna deste monólogo um dos grandes espetáculos em cartaz na cidade, com rara consciência e entrega a intérprete não se preocupa na mera representação de sua biografada (cujas semelhanças físicas já se encarregam de ilustrar) para transcendê-la e construir uma figura mítica que remete a algumas das mais fortes personagens da obra da escritora. Antonio Abujamra, em participação em off, faz a voz do pai da autora, tão presente em sua história literária. A boa dramaturgia de Gaspar Guimarães (sob coordenação de José Antônio de Souza) faz uma costura interessante de diferentes poesias, fragmentos de prosa e crônicas da autora, além de algumas cartas e entrevistas, e encontra reverberação na forte encenação de Ruy Cortez que ousa em múltiplas direções como a própria literatura apresentada que aponta para “cores” muito fortes e diferentes entre si. “Hilda Hilst – O Espírito da Coisa” é um espetáculo inesquecível que contagia o público com a força e paixão de uma grande atriz.

Serviço: Espaço dos Satyros II | Terça e quarta 21h

O encontro com uma grande atriz

O fazer teatral, principalmente em um país como o Brasil, exige além de talento e vocação, muita persistência. Só com uma persistência aguerrida alguns poucos artistas resistem durante suas vidas às tempestades comuns na profissão e permanecem atuantes, enquanto muitos de seus contemporâneos sucumbem às grandes dificuldades. Estes resistentes merecem todo nosso respeito e admiração, é o caso de Fernanda Montenegro, que ao longo do tempo recebeu pela mídia vários títulos como o de “primeira dama do teatro brasileiro”. O fato é que esta grande atriz prestes a completar oitenta anos de vida, quase sessenta de carreira, acima de qualquer coisa provoca em seu público uma legítima admiração, que transcende suas personagens e a instaura como figura pública, o que por um lado é ótimo, afinal dá voz a uma artista num país onde isso pouco acontece, mas por outro pode ser infeliz pois a tira de seu lugar de direito: o palco, e a coloca numa tribuna política onde despertará não só pensamentos compatíveis, como críticas que podem abafar seu trabalho. Após oito anos de ausência a atriz escolheu as palavras da escritora francesa Simone de Beuvoir para seu retorno ao teatro com o monólogo “Viver Sem Tempos Mortos”. O texto é formado principalmente por correspondências que a autora trocou com seu amado: o escritor e filósofo Jean-Paul Sartre, pai do existencialismo. Ao optar por concentrar-se na biografia, e não na obra, a peça apresenta o lado mais humano da feminista, autora de “O Segundo Sexo”, sua paradoxal postura quase machista perante o relacionamento, a devoção e concessões em nome do amor, revelando assim características inerentes ao feminino. Dirigido com elegância por Felipe Hirsch o espetáculo minimalista não utiliza recursos conhecidos do encenador, além de uma bonita luz e cenografia, ambas muito simples, concentra-se na razão-de-ser da montagem que é a própria atriz, delicadamente regida em seus gestos contidos e fala musicalmente cadenciada, que parece evocar o trabalho do diretor francês Claude Régy. A atriz vem à cena como ela própria, não busca a representação de sua personagem, mas contá-la, utiliza sua própria postura sóbria e concentrada para compor com cuidado uma presença limítrofe à escritora. É admirável sua consciência e constância em cena, mantendo força em um tom baixo e de linearidade. Ao final do espetáculo o público aplaude mais do que a performance em cena que acabara de assistir, ovaciona a atriz, ela própria parte da História do teatro brasileiro, e mesmo com a proposta cênica de quase frieza da peça, ao final o que temos é a emoção deste encontro do público com a atriz, aproximando e humanizando a figura pública, tal qual o olhar pessoal lançado sobre a escritora francesa a humaniza. Na noite em que assisti ao espetáculo, outro grande ator estava presente na platéia, Sérgio Britto, um comovente encontro que ao final rendeu dez ou quinze minutos de conversa despojada entre os amigos e compartilhada com os presentes. Neste momento confirmei que Viver Sem Tempos Mortos é sim um bom espetáculo onde uma atriz renomada ousa o minimalismo com maestria e, mais que isso, é uma oportunidade imperdível de ver e aplaudir o talento desta profissional que aos oitenta anos é símbolo de resistência e uma inspiração de continuidade para qualquer artista.

Serviço: SESC Consolação | Quinta e sexta 21h, sábado 20h e domingo 18h

Encenação de encanto imperdível

Um bom espetáculo pode surgir através de muitos possíveis caminhos, às vezes é o ótimo texto, outras uma bela direção, ou ainda um excelente elenco. Em alguns casos temos todas essas qualidades reunidas o que gera um grande espetáculo, onde o conjunto formado sobre o palco é de uma preciosidade enorme. “Agreste” é um destes grandes espetáculos que são simplesmente imperdíveis para todos (seja o público pagante ou a classe artística). Já havia assistido à peça no Rio de Janeiro há três ou quatro anos e em minha memória ficou preservado o encantamento que se reafirmaria ao assisti-la na nova temporada paulistana. O excepcional texto, que alçou ao sucesso de crítica o dramaturgo Newton Moreno, é de uma construção esmerada e artesanal da palavra, todo em formato narrativo, aposta numa linguagem muito próxima da melhor literatura e cria imagens e sensações emocionantes. A história de um casal apaixonado no pobre nordeste brasileiro e uma revelação perturbadora que vem com a morte do marido, é o mote que o autor usa para falar de preconceito, ignorância, intolerância, perda e amor. Na direção de Márcio Aurélio o texto se revela sobre o palco, sendo deflorado com delicadeza por uma encenação extremamente poética, que já impressiona pelo seu início considerado difícil nas regras tradicionais de mise-em-scène e se revela um ótimo recurso em total sintonia com o texto, transportado-nos para o imaginário onde emergirá o nosso agreste, e ao partir para a segunda parte de sua encenação o diretor cria partituras corporais de rara beleza, mantendo o tom sóbrio. A idéia de colocar em cena dois homens para contar esta história se revelará mais tarde genial, num jogo de sobreposição e distanciamento. O diretor acerta também na condução precisa dos atores, Paulo Marcello e Joca Andreazza dão vida ao belo texto através de dois recursos paralelos: a força na oralidade da narrativa como moderna contação de história e a interpretação não-naturalizada de personagens que aparecem e se esvaem. Com forte masculinidade em seu preparo corporal e vozes num intenso tom de gravidade, eles injetam peso dramático e suspense na cena. Em um trabalho irretocável de ambos, vale destacar o momento em que o primeiro cria uma comovente delicadeza, sobretudo no olhar, ao viver a recente viúva, enquanto o segundo se desdobra com desenvoltura em outras figuras. Fruto da Cia. Razões Inversas esta é uma interessantíssima montagem, delicada e ao mesmo tempo pungente, sobre um lugar não muito longe daqui onde uma história inquietante surge, e é preciso vê-la. “Agreste” é sem dúvidas um dos melhores espetáculos da década.

Serviço: Espaço dos Parlapatões | Sábado 21h e domingo 20h